sexta-feira, 3 de julho de 2015

de quando eu atravessei as pontes

Logo que cheguei, percebi que carregava pouca coisa. 
O peso foi sendo deixado pelo caminho
quanto mais pontes conhecia, mais pesos eu deixava. 
joguei tijolos, pedras, pedaços sobre o rio
e tinha dias que ele ficava mais bonito e mais cheio, 
e em outros, mais feio e mais vazio. 
logo que regressei, me deparei com caixas do que não cabiam mais em mim. 
Coisas que esqueci, coisas que preferi esquecer, coisas que não lembrava. 
Escritos e manuscritos fragmentados, despedaçados
como se me fotografasse na época que escrevi...
que esqueci. 
da outra vez que fui, senti frio. 
Circulei pelas ruas que amava e escutei o vazio. 
depois de tantas pedras e tantas pontes,
como eu ia querer que fosse o mesmo? 
Como poderia ser o mesmo de novo sem todos os pedaços que desfiz. 
já não faz mais sentido
já não faz 
já não tem mais motivo.
já não tem mais pedidos.
não mais.
não mais. 
E se eu tivesse me perdido, haveria algum pedido? 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

das três folhas

Te escrevi uma carta em três folhas:
Você recebeu,
(não) leu
e não sabe o que perdeu.

cartas de Abril

Estou relendo todos os livros dos quais tu me falastes.
Tenho pensando sobre.
Tenho andado meio cansada
As fotos já não me doem mais - tanto. 
Não me lembro exatamente do que tu me disseste na última vez que nos vimos.
Lembro dos teus olhos naquele dia, lembro do tom da tua voz, 
Lembro que queria me dizer alguma coisa e não disse. 
Lembro, até porque escrevi sobre isso uns dois dias depois. 
Te mandei alguns recados - acho que foram meio incompreensíveis, sei lá, pois não tive resposta.
Vi teu nome em algumas listas
E que nome lindo é esse que eu também tenho e que teria de novo para poder usar junto com um ponto final, bem pontuado em tudo o que eu fosse assinar. 
Te escrevi algumas vezes. Recebeu? 
Não que eu quisesse - ou até mesmo, esperasse  - uma resposta ( isso não é o principal).
Talvez, não aches certo continuar esses assuntos. Deixa de lado. 
Mas pensa sobre eles quando tudo está a ponto de explodir. 
Não te escrevi mais desde Abril. 
Abril já foi. 
Já li outros livros.
Já fui a outros lugares. 
Já não falo mais. 
E essas cartas que não tiveram respostas, eu respondi para eu mesma. 
Enfim. 
Ao fim. 
Até que enfim. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

devolvido ao remetente


Sabe quando tu carregas um amor que já não sente que é mais teu 

mas sabes que ele te leva e te dá forças? 
Sabe?
Sabe aquela sensação de não conseguir mais pedir por ele,
para que esse amor seja teu de novo, sabe?
Sabe quando esse amor te fazes buscar outros amores? 
Não amores como este amor 
mas amor de buscar um pouquinho mais de vontade de continuar a caminhar, 
de se sensibilizar com o céu, com os velhinhos na rua, com as crianças brincando.
Sabe?
Sabe quando esse amor te dá uma vontade de olhar só pra dentro ou pra mais longe?
Sabe, esse amor de querer ser quieto, pacato, um pouco mais grato, um pouco mais sensato.
É. 
É esse amor que ficou.
É esse amor que tu deixaste e que eu não tenho coragem de devolver-te.
É esse amor que eu consigo ter de teu. Nenhum outro. 
É desse outro amor que eu não tenho coragem de pedir de volta 
mas tenho amor pra este teu amor.
Tenho amor pelo amor teu que me sobrou. 

sábado, 8 de setembro de 2012

conversa fiada


É, moreno. 
Toda essa conversa fiada é sobre nós.
Que nunca aconteceu. 
Eu sei.
É sobre tudo o que deixamos passar. 

senhor do seu lugar


Como se eu não percebesse
Como se tu não soubesse 
que um dia  eu parei ali,
num lugar qualquer e te vi. 
Te vi distante no cinza implacável do lugar.
Te vi em cores absolutas.
E era feito de sinais,
eu era feita de palavras
e que palavras, já não cabem mais  - pensei comigo mesma aconselhando o amigo meu. 
Tanta coisa, tanta nuvem  por aí desbotando no céu.
Então, tu também paraste.
Deve ter pensado em uma coisa ou dias. 
Mostrou as mãos de desconfiança
 - Como queres me dar o que não cabe nas tuas mãos, senhora? 
As tuas mãos, 
senhor de nada no mundo, guardaram-se.
Ali parado, 
não sabia se podia atravessar
retornar ao seu lugar  
 - cadeira que ficou vaga.
Teve medo do meu esperar...
Minhas mãos pequenas mas hoje, de senhora, mostrei. 
Assim que saí do lugar,
guardei-as abertas no bolso da saia
 - Um dia eu vou - parado ele pensou
e logo foi embora.


Eu que sei. Eu que sei. 
Sai pra lá. Inventa outro lugar.
Lugar pequeno, distante, latejante.
Me deixa com meus botões
minhas músicas sem versos.
Bagunça o que quiser.
E se não é?
Cabe tudo aquilo que imaginar
Sopa de papel, brilho ofuscado,
retrato maltratado
rugas de preocupação, café de solidão.
Eu, parada na porta do silêncio da minha casa
Rimando nada com nada.
Esse nó. Esse nó. 
Esse céu um dia já foi maior. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

a letra "V" do teu nome


Faz tempo que não te vejo.
E só. 
Faz tempo e tempo aqui o que quer dizer?
Assisti filmes sem você.
Risos sem você. 
E escrevi coisas sobre você. Sobre você. 
E penso. 
Durante todo esse tempo, eu penso.
Penso se vai ser... 
E se ela vai se curar dessa dor. 
A gente pode ter.
A agonia deve passar. 
Talvez ainda fique um pouco de ti por lá. Não me importo.
Amor de lágrimas, amor de risos. 
Amor de segredos. Ah, esses segredos.
Te esperando ainda aqui sentado no sofá
E de tantos filmes que já vi e que já chorei e que já te vi, 
ali, saindo pela TV para ter mais uma conversa sem porquê.
Eu te curava o cansaço se você viesse.
Mais pão, mais vinho ou mais café.
Ainda teriam os filmes,
ainda teriam os outros - que nada nunca souberam do amor nosso - ,
ainda teriam os amigos chatos e os bares baratos.
E os cigarros. É, eu sei. É ruim mas é de mim.
E teria o Outono... foi sempre no Outono - mesmo que no fim - que tu vieste.
E a gente poderia ficar. 
Aqui ainda tem teu lugar.
Eu poderia mudar - não muito.... talvez algum hábito ou outro. Um detalhe ou dois. O que quiser-,
só não me diz que não pode vir 
mesmo que de vez em quando como era de costume nosso, 
Não me deixa esquecer.
Não deixa eu perder toda fé que ainda tenho nisso..
Esse nós.
Agora podia ser.. e se quiser, ninguém vai se enconder.
Porque todo mundo já vê teu retrato em meu peito aberto
mesmo que no meio da confusão ou no meio de uma multidão. 
Todo teu... sem medo agora de ser,
Porque já é e no fundo e em todos esses últimos anos, sempre foi.
Foi sempre, acho.
E o teu... ainda pode ser... eu... acho....bem aí. 

terça-feira, 1 de maio de 2012

o desenhista


Te apaguei. 
Teus bilhetes. Teu retrato
mas semana passada eu te vi,
no boteco do Seu Zé. 
Tinha olhos mansos e um lápis na mão.
Da surpresa, parei. 
Branca como um papel. 
E tu te desenhastes em mim novamente.
E com traços leves e outros mais fortes 
na tentativa de que eu não vá mais te apagar.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

dessa moça assim.


Essa moça já nem é mais assim
O cabelo mudou um tanto
no coração já não cabe mais tanto pranto
e já nem fala mais tanto tanto
fala pouco e pronto. 
Já não tem medo mais de só
e já procura ser um tanto quanto.

Essa moça, essa moça assim
Já não tem mais dó de mim
Não faz mais reza de arrumar marido 
já não usa mais só vestido florido
Essa moça assim
diz que não gosta mais de mim
não, não gosta mais de mim
Mas sorrir assim 
e poema assim, 
sei que ela faz pensando em mim.